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11 agosto 2009

Poemas de Fernando Pessoa (Compilação)







Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada...

Sei que o mundo existe, mas não sei se existo,

Eu nem sequer sou poeta, vejo...
.
Sei que o que eu escrevo tem valor, mas não sou eu que o tenho...

O valor está ali, nos meus versos...

Sinto uma alegria enorme, só em pensar que a minha morte,

não tem importância alguma.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.

Devo tomar alguma coisa? Ou suicidar-me?

Não, !!!
Vou existir,
Arre! Vou existir! E-xis-tir! E-xis-tir!!!

Com um lenço branco, digo adeus aos meus versos,

que se partem para a humanidade...

Corre o rio e entro o mar, e a agua é a que sempre foi sua...

Passo e fico, como o Universo!

Ah! quem sabe, quem sabe, se não parti outrora, antes de mim, de um cais...

Se não deixei, navio ao sol, uma outro espécie de porto?

Toma-me pouco a pouco, o delírio das coisas marítimas.

Chamam por mim as águas,

Chamam por mim o mar.

O sol dos tropícos pòe a febre da pirataria antiga em minhas veias intensivas.

Os ventos da Patagônia tatuaram a minha imaginação,
de imagens trágicas e obscenas.

Eia!, que vida é esta...

Sangue nos mares!, Conveses cheios de sangue!, Fragmentos de corpos...

Dedos decepados sobre amuradas!,
Cabeças de crianças aqui, acolá!.

Gente de olhos de fora, a gritar, a uivar...

Ah!, Piratas, piratas, piratas!.
Piratas... Amai-me e Odiai-me.
Misturai-me convosco, piratas!.

Cinzelai a sangue minha alma...

Desabai sobre mim, como grandes muros pesados, õ barbaros do antigo mar...

Vossa fúria, vossa crueldade,

Como falam ao sangue de um corpo de mulher, que foi meu outrora,

E cujo cio sobrevive...

O mundo inteiro não existe para mim, ardo vermelho...

Da minha ideia do mundo cai, vácuo além do profundo...

Vacuo sem si próprio, escada absoluta sem degraus...

Minha alma beija o quadro que pintou...

Sinto ao pé dos séculos perdidos... e sismo o seu perfil de inércia e voô...

Parte-se de mim qualquer coisa, o vermelho anoiteceu...

Senti demais para continuar a sentir!...

Cometi todos os crimes, vivi todos os crimes...

E há, em cada canto da minha alma, um altar erguido a um deus diferente...

Fiz de mim o que não soube, e o que poderia fazer de mim não fiz,

Quando quiz tirar a mascara, estava pregada a cara...

Chove ouro baço, mas não no lá fora, ... Só em mim, sou a hora!.

Oh!, que mudo grito de ânsias põe garras na hora!

A hora!, O minuto!, O segundo!, Pum!!!

Sim!, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:

- As cousas não tem significação, tem existência.

- As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Colhamos flores e que o seu perfume suavize o momento...

Este momento em que sossegadamente não cremos em nada...

Pagãos inocentes da decadência, vinde aqui!.

Vinde aqui todos os que sois, sabendo-o bem, sabendo-o mal...

Poetas, ou Santos, ou Herois, Cavaleiros de uma cruzada além dos astros...

De que estes astros, aos milheiros, são só os rastros...

Deus está morto-vivo, a civilização gagueja:

- Grandes são os desertos, minha alma, grandes são os desertos!!



(Poema de Fernando Pessoa)

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